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De Mulher para Mulher
Por: Eugénie de Franval    

                                    

                                                                             

ATO DE CONTRIÇÃO

Olha só gente... Desde a véspera do mal explicado atentado contra aquelas torres lá em NY, até hoje, que minha vida entrou em fase de surrealismo explícito. Primeiro, foi o fato de ter-me encontrado com um árabe no aeroporto de Paris e ao invés de ir parar no centro da tragédia, para onde deveria ter ido trabalhar no dia seguinte, minha sacrossanta irresponsabilidade fez com que eu fosse parar nas Ilhas Gregas, onde acabei vivendo uma tórrida paixão, do tamanho daquelas que já tinha vivido em plena adolescência.

Voltei para Paris somente em meados de outubro. Meu árabe foi embora e quando tudo parecia querer entrar nos eixos, eis que sou arrebatada e levada por ele, sem mais nem menos e sem também opor a menor resistência, diga-se a bem da verdade, para Bora Bora e de lá para Ibiza, onde passamos o Natal, o Reveilon e permanecemos até a segunda quinzena de fevereiro, na mais louca e longa Lua de Mel que se tem notícia.

Quando saímos da Espanha fomos direto para o Rio de Janeiro passar o Carnaval, desfilamos na Viradouro, uma apimentada Escola de Samba,  e do Brasil retornamos a Paris com os últimos acordes do Carnaval carioca ainda ressoando nos ouvidos.

Durante nossa permanência em Ibiza, Mohamed, esse é o nome do meu amante, não se afastava do seu "laptop". Trabalhava sem horários definidos nas horas e nos lugares mais imprevisíveis. Eram as horas que eu tinha para fazer minhas incursões solitárias pela ilha e sentir o vácuo de sua ausência.

Cheguei  a pensar que ele fosse terrorista (eles estão tão em moda!) ou qualquer coisa do gênero, mas minhas desconfianças nunca iam além das primeiras trocas de carícias, quando a indiferença por tudo e por todos se instalava em todo o meu corpo e em minha mente. Aqueles momentos, toda aquela loucura, todo aquele prazer, tinham um poder absoluto sobre nós. Ficávamos durante horas totalmente entregues a sensações que transcendiam a razão e a lógica. Confesso que se fosse terrorista, para mim não faria a menor diferença.

Mohamed é um perfeito cavalheiro e só faltava adivinhar meus pensamentos e meus desejos. Quase que diariamente me estragava com os mais variados presentes. Eu penso até que ele gostava de cobrir-me de roupas só para ter o prazer de despir-me. Nenhuma mulher deve ter ganhado tanta calcinha, cada uma com cores e detalhes diferentes, igualando-se apenas pelo bom gosto. Sob qualquer pretexto, comprava , jóias, perfumes, vestidos, saias, shorts, blusas e tudo o que via pela frente. Biquínis perdi a conta. A única coisa que nunca comprou e nem deixou que eu comprasse ou usasse, foi sutien.

Tem verdadeira paixão pelos meus seios, manipula-os com muita habilidade e gosta de vê-los libertos. Fica excitado e seus olhos brilham sempre que olham para eles, até mesmo através dos meus decotes extravagantes, estejamos onde estivermos, como se os contemplasse pela primeira vez.  

Sempre que saíamos de lancha, assim que a embarcação se afastava do píer, a primeira coisa que fazíamos era tirar tudo o que pudesse atrapalhar nossos toques ou a contemplação dos nossos corpos. Comíamo-nos com os olhos, as mãos, os dedos, os cabelos, os dentes, as línguas, a pele, a boca, o hálito, os poros, tudo tendo como única testemunha daquele transbordar de amor, a serena e assustadora imensidão do mar. Não havia um milímetro de nossos corpos que escapasse dos rituais de prazer, inventados ou adivinhados naquelas horas de êxtase. Um simples passar de protetor solar pelo corpo um do outro se transformava numa submissão a Vênus.

Até hoje não sei direito o que Mohamed faz na vida, além de comer-me com grande competência. A única coisa que pude perceber nele foi sua suficiência financeira para se bastar a si mesmo, indiferente a tudo e a todos que o rodeiam.

Compra coisas e pessoas com a mesma naturalidade. Desdenha a maledicência e vive, epicurianamente, uma vida voluptuosa, entregando-se a todos os prazeres que o deleitam. 

Seus modos, seus gostos refinados, sua cultura, seu amor pelas artes, seu conhecimento de história, a fluência com que domina os diversos idiomas dos quais faz uso quase que diariamente, os países que conhece, que não são poucos, os lugares que freqüenta e até mesmo o gosto pela boa mesa e pelos bons vinhos, revelam uma educação e uma cultura aprimorada de um verdadeiro nobre.

Um príncipe moderno e globalizado que parece comandar um império através do seu notebook. Fica horas conectado a todos os mercados financeiros do mundo, esteja num hotel, num carro, numa lancha, seja lá onde for ou que horas possam ser, pois guarda todos os fusos horários na cabeça e transita por eles com grande desenvoltura.

Totalmente entregue a tal criatura, no tumulto de uma paixão arrebatadora, o futuro, confesso, por vezes me inquietava um pouco. Mas logo o brilho de seu olhar, o calor do seu corpo, a doçura de suas palavras e todo o seu envolvimento, depressa me convenciam que aqueles momentos tão raros e tão doces que estava vivendo só podiam me fazer bem. 

Durante todo o tempo que passei em sua companhia, não houve um dia sequer, que não tivesse aprendido algo novo, fosse uma palavra, a marca de um vinho, o sabor de um licor, a fragrância de um perfume, os costumes de um povo, o dialeto de uma aldeia, o nome de um livro, uma jogada financeira, ou até mesmo um carinho diferente... Seria impossível não aprender sempre uma coisa nova convivendo com ele durante meses seguidos.

Além de tudo, Mohamed é uma verdadeira perda para as mulheres. Quarentão bem resolvido, fino, educado, alto, escultural, de belíssimos cabelos ondulados castanhos escuros, nariz aquilino, dentes magníficos, olhos expressivos e de grande vivacidade, pele morena avermelhada curtida pelo sol de todos os verões do mundo, formando um conjunto de uma espécie de voluptuosidade tão excitante que a um simples olhar, não há mulher que se lhe resista.

Agnóstico convicto, não acredita que ninguém deva ser recompensado por suas virtudes cujo mérito não lhes cabe e nem tampouco punido por algum mal que possa cometer, por estarmos todos isento de culpa. Isto porque, segundo ele, somos todos arrastados por uma força irresistível, e não há sequer um instante em que tenhamos a liberdade de nos decidirmos por algo que não seja o lado para o qual pendemos. É incapaz de renunciar ao prazer de ser feliz e de fazer os outros felizes, ao mesmo tempo em que preza a volúpia como o mais precioso dos seus bens.

E foi por este homem e por esta paixão que abandonei meus serviços, deixei meus alunos sem aulas e sem orientação, meus amigos em falta, minha família preocupada, meus empregadores perplexos e vocês amigas, sem nossos artigos.

Aliás, para dizer a verdade, não foi por ele... Foi por mim, por minha felicidade, pelos melhores momentos que passei em toda a vida, por tudo  que aprendi, por tudo que dei, por tudo que recebi e principalmente por ter sido eleita por Mohamed e pelo destino, para fazer-lhe às vezes de sua puta, sua amante, sua mulher, sua diversão, sua companhia, sua confidente, sua alegria, seu repouso e tudo o mais que quisesse que eu representasse.

Assim que chegamos em Paris, após o Carnaval, Mohamed ficou comigo ainda uma semana em meu apartamento e do mesmo modo que surgiu, foi embora... Sem promessas, sem despedidas, sem tristezas ou cenas. Deixei-o no aeroporto com destino ao Cairo com aquele olhar envolvente, vivo e enigmático de sempre...  Ali nos despedimos, sem dizer adeus, com apenas um "selinho" nos lábios.

Após o avião ter decolado, dirigi-me ao estacionamento para pegar meu carro e pelo caminho, ao primeiro contato com a nova, ou com a velha realidade, um  vácuo total e absoluto apoderou-se de todo o meu ser. Esta talvez tenha sido a minha primeira, única e última manifestação de angústia...

Como Mohamed me ensinara, recobrei com um simples sorriso toda a minha alegria de volta e pensei ao mesmo tempo: "A festa acabou, menina! Estamos bem e temos todos os motivos do mundo para comemorar". Uma paixão só é boa quando termina em paz e com muito amor... Voila!

                                                                                    Eugénie.

Eugénie de Franval é antropóloga e psicóloga com PhD na Sorbonne - France (1986/1997).        

Leia também:   A importância...   Amor Cigano                

 

                                 

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