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De Mulher
para Mulher
Por: Eugénie de Franval

AMOR CIGANO
Denise querida,
Obrigado pelo seu carinhoso
e-mail que, entre outros, chamou-me a atenção pela sensibilidade e pela forma como
captou minha surrealista aventura com "aquele árabe misterioso". No fim, sem querer,
acabou por trazer a tona uma questão de interesse universal para todas nós mulheres,
embora muito complexa e difícil de ser analisada, se é que ainda é possível entender
o comportamento humano dentro de um raciocínio lógico em época tão conturbada.
Abordou, com muita propriedade, a
diferença dos diversos artigos que aparecem no Komiketo, "inacreditavelmente escrito
pela mesma pessoa", conforme assinalou. De fato, creio que nunca somos a mesma
pessoa, ou seja, não representamos sempre o mesmo papel. Há em nós uma infinidade de
"estados de espírito", dentro de focos permanentes de ódio, crueldade, barbárie,
cegueira, sem as quais, paradoxalmente, não haveria "élan", criação, amor e nem
poesia.
Os homens em geral, e nós
mulheres em particular, além de insuficientes na razão, somos também dotadas de uma
dose exagerada de desrazão. Daí, termos ainda o encargo de manter sob
controle essa desrazão sobrepondo-lhe, na medida do possível, um pensamento
ético, crítico e isento, com o propósito inconfessável de amanhã podermos nos
absolver sem maiores conflitos.
Dentro da inconseqüência, e
aparente irresponsabilidade, a que você se referiu, precisamos ter todo o cuidado do
mundo para mantermos nossos sofrimentos, felicidades e amores, em perfeito
equilíbrio, se quisermos absorver, com um mínimo de elegância, os cruéis revezes que
nos são impostos.
Embora pareça uma contradição,
geralmente, quando mais pensamos estar perto da felicidade, mais estamos nos
aproximando da infelicidade. Confúcio dizia que a felicidade caminha lado a lado com
a infelicidade; "a felicidade dorme ao pé da infelicidade". Por outro lado, se o
amor e a paixão são, como acredito que sejam, os momentos supremos da loucura, é
preciso que sejam assumidos, sem receios ou restrições.
A diferença que você percebe em
meus artigos, nada mais são do que o contraditório entre a razão e a irracionalidade.
A essência de tudo que escrevo, é quase sempre a mesma, dentro de um monólogo
irracional.
Sobretudo porque tenho a mais
plena convicção da impossibilidade de definir o amor sem seus componentes biológicos
e sexuais. Se assim o fizesse, estaria excluindo a necessária adesão do corpo,
existente até na simples expressão "eu te amo". Tais componentes, são modulados de
formas diversas, no espaço e no tempo, pelas diferentes sociedades e por diferentes
costumes, mas nem por isso deixam de ser universais e imprescindíveis, dada a fonte
animal inconteste existente na relação entre o homem e a mulher, que vão encontrar
sua expressão máxima no reencontro do sacro com o profano. E é nesse momento que
surge a contradição expondo a perplexidade humana diante do inexplicável.
Por que logo com um desconhecido,
um árabe? Como posso responder, se a paixão não respeita regras e diante delas,
olimpicamente as ignora, despedaça-se nelas ou simplesmente as rompe? A paixão,
inexplicavelmente pressente por um simples olhar, induz e não raro, encontra sua
sacralidade, sua moralidade, naquele momento animal e degradante do contato carnal,
nas loucuras da alcova. Tudo o mais, passa a não ter o menor sentido, a menor
importância.
Creia, o verdadeiro amor é cigano
e se reconhece naquilo que sobrevive ao sexo desregrado, irracional, enquanto o
desejo comportado, programado, sem as loucuras e sem sua animalidade imprescindível,
se desmancha logo após o orgasmo.
O mais incrível de tudo, é que a
comunhão prazerosa de dois corpos, naquelas circunstâncias, gera uma fascinação
recíproca que se reflete no rosto, no olhar, naquele "ar de felicidade",
impossível de se manifestar senão através de um envolvimento pleno, devasso e
irresponsável.
Grande abraço
Eugénie.
Eugénie de Franval é
antropóloga e psicóloga com PhD na Sorbonne - France (1986/1997).
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